Berlim está em festa.
A cidade celebra os 200 anos da Museum Island (completados em 2025), um dos complexos culturais mais importantes do mundo. E, como tudo em Berlim, isso não acontece de forma tímida. As programações especiais se espalham pela cidade, os museus ganham novas exposições, debates, eventos e reforçam algo que Berlim faz como poucas: transformar história em algo vivo, atual e pulsante. Berlim não é uma cidade que se entrega rápido. Ela se mostra aos poucos, em camadas. E talvez por isso conquiste tanto quem gosta de viajar com curiosidade, repertório e olhar atento.

Um pouco de contexto (porque ajuda a entender tudo)
Nos anos 1920, Berlim foi o centro de grandes transformações culturais durante a República de Weimar. Um período de efervescência artística, intelectual e social que marcou a cidade profundamente. Esse movimento foi brutalmente interrompido pela ascensão do nazismo e, depois, pela devastação da Segunda Guerra Mundial, que deixou Berlim em ruínas.Em 1961, veio o Muro de Berlim, dividindo a cidade entre Leste e Oeste. Uma ferida aberta que durou quase três décadas. Em 1989, o muro caiu e se tornou símbolo global de liberdade. Desde 1990, Berlim voltou a ser a capital reunificada da Alemanha, carregando consigo uma história intensa, complexa e impossível de ignorar.Por que Berlim é tão únicaBerlim é uma cidade onde o novo e o antigo convivem na mesma rua, sem esforço e sem pose. Um prédio marcado pela guerra pode dividir espaço com uma galeria contemporânea, um café moderninho ou um mural de arte urbana que muda completamente o clima do quarteirão. A cidade respira arte, música e história viva o tempo todo, mas sem transformar isso em algo engessado. O Portão de Brandemburgo, que já foi símbolo de divisão, hoje representa união e recomeço. A Ilha dos Museus concentra alguns dos acervos mais importantes da Europa, enquanto lugares como o Memorial do Holocausto impactam mais pelo silêncio do que por palavras. Berlim não apaga o passado, mas também não vive presa a ele. É esse equilíbrio que faz a cidade ser tão interessante de explorar.

Curiosidades rápidas
Berlim tem mais pontes que Veneza, são mais de 900 espalhadas pela cidade. É uma das capitais mais verdes da Europa, com cerca de 40% do território ocupado por áreas verdes. Tem mais museus do que dias no ano e três grandes óperas em funcionamento. O famoso bonequinho do semáforo, o Ampelmann, virou ícone cultural. Fofo! (Não deixe de visitar a lojinha!) O grafite é tão forte que existe até tour oficial de arte urbana. E, claro, o currywurst (Consiste, essencialmente, numa salsicha de porco grelhada ou frita, cortada em rodelas e regada com um molho de ketchup temperado e uma generosa quantidade de curry) segue sendo o lanche mais clássico e democrático da cidade. Prove!



O Muro de Berlim, sem rodeios
Depois da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha foi dividida em duas partes: a Alemanha Ocidental, capitalista, e a Alemanha Oriental, socialista, sob influência soviética. Mesmo localizada dentro da parte oriental, Berlim também foi dividida em Leste e Oeste. Entre 1949 e 1961, mais de três milhões de pessoas fugiram da Alemanha Oriental em busca de liberdade e melhores condições de vida. Para impedir essa fuga, o governo decidiu fechar a fronteira de forma definitiva. Na madrugada de 13 de agosto de 1961, ruas foram bloqueadas, trilhos interrompidos e o muro começou a ser erguido. Famílias foram separadas do dia para a noite. O muro tinha cerca de 155 quilômetros, era altamente militarizado e cercado por torres de vigilância, guardas armados e a chamada “faixa da morte”. A travessia era proibida e, em muitos casos, fatal. Em 9 de novembro de 1989, após um anúncio confuso do governo, multidões correram para os postos de fronteira. Os guardas, sem ordens claras, abriram os portões. Pessoas subiram no muro, quebraram pedaços, se abraçaram. Foi o fim simbólico da Guerra Fria. Hoje, partes do muro permanecem como memória, como a East Side Gallery, transformada em galeria de arte a céu aberto.

Onde ficar em Berlim, Duas experiências bem diferentes
Fiquei em dois hotéis que mostram lados distintos da cidade e, honestamente, ambos funcionam muito bem dependendo do estilo de viagem. O Roomers Berlin, em West Berlin, é aquele hotel que conquista pelo design e pela atmosfera. São poucos quartos, todos diferentes entre si, bem espaçosos, com inspiração nos anos 1920 e uma pegada contemporânea elegante. É um hotel que convida a ficar, não apenas a dormir. O spa no rooftop é perfeito para desacelerar depois de um dia intenso de caminhadas pela cidade. Um dos grandes destaques é o Manon – Brasserie Nouvelle. Um restaurante excelente, que vale a visita mesmo para quem não está hospedado no hotel. Cozinha bem executada, aberta, ambiente bonito e decoração bacana. O bar do hotel também merece atenção, com design marcante e uma vibe que mistura hóspedes e berlinenses locais, algo que sempre considero um bom sinal.
Confira as fotos do delicioso Roomers:







Já o Adlon Kempinski é outra opção muito bem recomendada. Hospedar-se ali é viver Berlim com um pé na história. O hotel está literalmente em frente ao Portão de Brandemburgo, na Pariser Platz, e carrega uma tradição que atravessa o século XX. Os elevadores são icônicos, daqueles que já dizem muito sobre o lugar antes mesmo de chegar ao quarto.E preciso registrar: foi o melhor café da manhã de hotel que já experimentei na vida. E olha que já provei milhares, hein? São vários salões lindos e um com vista para o Portão de Brandemburgo. A variedade é impressionante, qualidade altíssima (até caviar com champanhe tem diariamente) e aquele clima clássico que faz você querer sentar sem pressa. O hotel tem spa e academia, uma lojinha fofa e um Café “Adlon to go” irresistível com suas gostosuras feitas pela equipe confeiteira do hotel. O restaurante gourmet Lorenz Adlon Esszimmer, com estrelas Michelin, é o mais renomado da cidade. O lobby é daqueles espaços elegantes onde dá vontade de simplesmente observar o vai e vem, com uma tacinha de vinho na mão sentada ao lado da “elephant fountain”- réplica de um símbolo histórico do hotel. Um detalhe curioso: no bar do hotel já foi servida a versão gourmet do famoso currywurst, com folha de ouro.
Confira as fotos que tirei pelo elegante Adlon:











Roteiro fora do óbvio (com um parêntese importante)
Claro que, se você estiver indo a Berlim pela primeira vez, “tem que” reservar pelo menos um dia para a Museum Island, o Palácio do Reichstag, o Portão de Brandemburgo, Alexander Platz e os grandes clássicos. Eles são importantes e fazem parte da leitura da cidade. Mas aqui, a ideia é ir além do turistão. Comece com um walking tour na sua própria língua para não perder nenhum detalhe.


Recomendo muito começar o dia com um walking tour na sua língua com a empresa Vive Berlin Tour, porque entender a cidade muda completamente a experiência. Depois, inclua o Humboldt Forum, um espaço moderno que conecta culturas do mundo inteiro, arte, ciência e história, com um descolado rooftop Baret que entrega uma das vistas mais bonitas do centro.Vá na hora do sunset e terá uma bela experiência.





À noite, o Fork & Walk Food Tour é uma ótima forma de sentir a cena gastronômica local, misturando história e comida popular. A gente vai provando as delícias berlinenses e aprendendo mais da cidade. O final é num wine bar de vinhos portugueses, estilo speakeasy, uma surpresa deliciosa.


Inclua o Fotografiska Berlin, inaugurado em 2023, para mergulhar em fotografia contemporânea e arte com discurso. É um programinha diferente e no final vale um drink ou até mesmo um jantar por lá. Estava bem badaladinho quando fui!

Reserve também um horário para a The Feuerle Collection, instalada em um bunker da Segunda Guerra, exposição com visita guiada, luz baixa e uma proposta contemplativa que foge completamente do padrão dos museus tradicionais. Inusitada.

E, se puder, feche uma noite no Chamäleon Theater Berlin. O espaço é uma vitrine para posições artísticas contemporâneas no cenário circense internacional. Fica nos Hackesche Höfe, um conjunto lindíssimo de pátios interligados construídos em 1906, em estilo Art Nouveau (Jugendstil), que hoje é um dos destaques arquitetônicos da cidade. O teatro fica no que foi originalmente um salão de baile histórico dentro desse complexo. Até a Segunda Guerra Mundial, o espaço era usado para festas e eventos; depois passou por décadas como armazém até ser transformado em teatro na década de 1990. A vibe do teatro é espetacular. Assisti ao espetáculo Wolf, da companhia australiana Circa, é intenso, não verbal e profundamente impactante. Um lembrete de que Berlim também se vive no corpo, no movimento e na emoção. Consulte a programação e reserve um espetáculo lá. Eu fortemente recomendo!



Berlim em Dezembro
Se você visitar a cidade no inverno, prepare-se para mais de 70 mercados de Natal. O Christmas Market at Gendarmenmarkt é um dos mais bonitos e completos. É cercado por prédios históricos, com clima animado mesmo no frio. Vá com fome e sede! Não deixe de provar a enorme variedade de salsichas alemãs. Um espetáculo até para os olhos, veja só como eles expõem:

Berlim não se resume a um checklist. Ela se entende no caminhar, nas conversas, nos contrastes e nas pausas. É uma cidade que provoca, questiona e, justamente por isso, deixa vontade de voltar. Sempre.
Fui a convite de @visitberlin .

















